Cake cinema

A dor de Jen

21:59Guilherme Correa

Entrar na piscina, trancar a respiração, afundar, encostar o pé no azulejo e emergir, numa sensação de perigo e triunfo. Um gesto simples, mas que pode desencadear uma série de problemas. Da perda de consciência à morte, corremos o risco pelo fato de acreditarmos que podemos fazer algo, muitas vezes não prevendo limites. Sem enxergar barreiras, Clair (Jennifer Aniston) vive numa constante imersão – não volta pra borda, nem desce até o fundo. É nesse meio que ela se encontra machucada, fisicamente e psicologicamente.


Em “Cake”, a personagem principal não tem amigos, família, trabalho ou paciência. A perda do filho foi o estopim para que a depressão tomasse conta dela e da rotina. Rabugenta, não consegue se manter no grupo de terapia. Sem calma, não melhora das dores na fisioterapia. A única pessoa que parece aguentar tudo isso é a empregada Silvana (Adriana Barraza). É ela quem transporta Clair, quem a lembra da importância de uma refeição, quem lhe dá algum carinho e alento. Ao longo do filme, percebemos que não é o pagamento no fim do mês que liga patroa e funcionária.

O suicídio de uma pessoa próxima à Clair faz com que ela repense a própria vida. Indo direto ao ponto, o filme aborda essa mudança de forma simples, proposta por um roteiro bem direcionado. Não há o melodramático ou situações forçadas para que o telespectador sinta pena. E sim, Jennifer Aniston parece que achou o tão sonhado papel que a diferencia da marcante Rachel, de “Friends”. É dela grande parte do sucesso do filme, numa atuação tocante e consistente, que melhora nos diálogos em que Jennifer e Adriana Barraza dividem, dirigidas por Daniel Barnz. Tão bem dirigidas que pouco importa se a atriz principal está sem maquiagem, com o cabelo bagunçado, com cicatrizes por todo o corpo. O que fica evidente do começo ao fim de “Cake” são as cicatrizes que ela carrega dentro do coração e da cabeça.


“Cake” é quase uma ode à dor e ao sofrimento. Uma amostra de julgamento pessoal do que é bom ou não, sem esquecer que a vida tem muito mais a oferecer. A redenção vem aos poucos, após uma série de fatores que faz Clair enxergar quem ela realmente é. Mais realista, impossível.

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