Os animais que aparecem nos créditos iniciais de “Relatos Selvagens” não estão ali por acaso. Dizem que a maior diferença entre eles e o homem é que o segundo seria racional. Ao longo do filme ficamos na dúvida se o ser humano realmente é tão inteligente assim. “Relatos Selvagens” tem direção do argentino Daminán Szifron, e produção do diretor espanhol Pedro Almodóvar. O filme conta seis histórias, sem conexão entre os personagens, mas com temas em comum: vingança, crueldade e o sentimento de injustiça. Na maioria delas o tom é de humor negro e em alguns momentos o drama se sobressaia, nunca perdendo o ritmo – sendo esse apenas um dos pontos positivos do longa.
O elenco, liderado pela sensação do mercado cinematográfico latino-americano Ricardo Darín, é expressivo, cativante e bem dirigido. O roteiro usa situações que podem acontecer ou já aconteceram em qualquer canto do mundo, diminuindo as barreiras geográficas entre público e ficção. E mesmo nos casos em que a fantasia pareça exagerada, tudo se encaixa de forma com que o espectador fique vidrado tentando descobrir como será o desfecho. O primeiro deles, num avião com passageiros “sequestrados”, já revela muito do filme. Em outro episódio, sobre dois motoristas esquentadinhos, é impossível não lembrar dos desenhos animados, provocando risos no desenrolar da história. É o papa-léguas fugindo do coiote em versão humana.
O mais sério dos esquetes é o que trata da família de um jovem rico que atropela uma mulher grávida. O tom é pesado, mas não menos interessante, em que o dinheiro tenta minimizar uma situação que, independente da classe social, acabará mal. A fotografia e a trilha fazem a transição ideal entre cada episódio. Dessa história pesada de homicídio somos levados pra uma grande festa de casamento, por exemplo. O clima muda na tela em segundos e na plateia também.
São muitos os méritos de “Relatos Selvagens”. O filme é coeso e as boas partes se transformam num todo excelente. É divertido e também faz refletir. Somos muitas vezes irracionais e pouco inteligentes em nossas atitudes. E isso acontece, principalmente, quando a calma se esgota e o desejo é de que tudo vá pelos ares, que tudo se exploda.


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