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Socos e chutes

11:54Guilherme Correa

“Praia do Futuro” não é indiferente. Provoca, causa espanto, conflito e faz o espectador pensar além da história. Com um drama que fala sobre perdas, liberdade e medo, o filme de Karim Aïnouz (“Madame Satã” e “O Céu de Suely”), é uma bela história, contada de forma bastante densa, e que aproxima o público de emoções reais. 


O longa começa rápido e colorido, nas areias da praia que dá nome ao filme. Mas logo de cara somos levados ao desespero do guarda-vidas Donato (Wagner Moura), numa tentativa frustrada de salvar dois turistas alemães. Apenas um deles, Konrad (Clemens Schick), sobrevive e é com ele que Donato cria uma ligação carnal e afetiva, capaz de fazer o guarda-vidas mudar pra Alemanha, deixando trabalho, família e o irmão Ayrton (Jesuita Barbosa) no Brasil. 


O filme é divido em três capítulos bastante distintos, com algumas elipses, mas que mesmo assim seguem uma ordem cronológica. Os fatos que não estão explicados podem ser completados facilmente com a imaginação do espectador. A história se desenvolve através de uma construção narrativa interessante e jogando a luz sobre todos os personagens. Donato é carrancudo, larga o passado, se mostra arrependido, por vezes solitário. Konrad surge em momentos de afeto e de aconselhamento. Ayrton, que vai atrás do irmão na busca de respostas, procura também ternura em meio ao sofrimento pra continuar a vida. 

Com fotografia inspirada e paisagens contrastantes, do Sol do Brasil ao frio de Berlim, “Praia do Futuro” enche os olhos. A trilha sonora, ora punk/ora melancólica, surge certeira, sem exageros. Mas são em momentos mais simples, sem tanta plasticidade, que o filme cativa ainda mais. A cena em que o som da vitrola embala a dança desengonçada de Donato e Konrad e os momentos finais do filme, numa “praia sem água” e na estrada enevoada, são os melhores exemplos. 


Wagner Moura e Clemens Schick formam um casal sem qualquer excesso. O relacionamento aqui pontua fases e emoções diferentes na vida dos personagens. Os diálogos, os trejeitos e a direção precisa não transformam o filme em apenas mais um sobre amor homoafetivo. Aqui, os personagens são tratados a soco, levam os pontapés da vida e tentam seguir da melhor forma, assim como qualquer pessoa.

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