cinema Denis Villeneuve

Decifrando o caos

18:04Guilherme Correa

Uma aranha, carregando ovos, quase esmagada por um salto alto. A cena que abre o “O Homem Duplicado” é carregada de mistério, envolve sexo e opressão e dá o tom exato do longa baseado na obra do português José Saramago. Mesmo que para muitos o filme não faça sentido, a produção brinca justamente com metáforas pra tentar ampliar o olhar do espectador.


A história mostra um professor em sua rotina sem grandes emoções. Da aula pra casa, de casa pra aula. Mesmo com o passar dos dias, nada parece mudar na vida de Adam (Jake Gyllenhaal). Até que Adam descobre, assistindo a um filme, um homem idêntico a ele. O ator vive na mesma cidade que Adam e desvendar quem é esse homem e porque eles são tão parecidos se torna uma aventura na vida do professor.


O elenco é mínimo e o filme tem apenas 1h30. Jake Gallenhaal, que interpreta os dois personagens, surge mais maduro e com atuação consistente. É a segunda vez que Jake trabalha com o diretor Denis Villeneuve, do competente “Os Suspeitos”. Mélanie Laurent (“Bastardos Inglórios”) aparece como Mary, namorada do professor, e Sarah Gadon (“Cosmópolis”) é Helen, mulher que está grávida de seis meses do ator.

A direção é bem conduzida e mantém o clima de suspense durante o longa. A fotografia, amarelada, torna tudo mais sombrio, reforçando a ideia de que o filme parece uma obra de arte abstrata. A trilha sonora contribui, mas também atrapalha, surge em excesso, parece deslocada, como na cena em que o professor sai do carro e segue até um orelhão. Chega a dar aflição, ampliando esse sentimento que pode ou não ser proposital.


O fim, repentino, não deve agradar aqueles que não conseguiram chegar a alguma conclusão. O filme abre diversas interpretações, transportando pras telas o que Saramago transformou em livro. A produção é mais interpretativa do que explicativa e isso é bom. Faz com que o espectador fique mais atento e tente decifrar os enigmas que surgem na tela. O porteiro, o tempo da gravidez, a carta deixada na portaria, a aranha gigante que surge em cima da cidade (seria a obra de arte 'Maman', de Louise Bourgeois?), a marca de aliança, tudo tem algum sentido. O próprio diretor disse em entrevistas que todas as respostas então ali no longa. Uma jogada de marketing ou uma verdade? Pra descobrir, basta entrar na brincadeira que o filme propõe.

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