O primeiro livro lanƧado por aquele que Ć© considerado mestre do terror, o americano Stephen King, foi “Carrie”, em 1974. Dois anos depois, chegou aos cinemas de todo o mundo o filme baseado no livro, considerado um clĆ”ssico e que rendeu Ć protagonista, Sissy Spacek, a indicação ao Oscar de melhor atriz em 1976. Dirigido por Brian de Palma, o primeiro longa mostra os problemas enfrentados pela jovem e virginal Carrie, que precisa lidar com a descoberta da maturidade e da sexualidade, a mĆ£e fanĆ”tica religiosa e, se tudo isso nĆ£o fosse suficiente, lidar com os poderes de telecinese (capacidade de mover objetos com a forƧa do pensamento).
No filme acompanhamos as mudanƧas na vida da protagonista, que sĆ£o mostradas de forma sutil e que deixam explĆcitas nos antagonistas as atitudes e os pensamentos contrĆ”rios ao de Carrie. A menina mĆ” Ć© promĆscua, corrompe as colegas de escola e usa de sexo pra convencer o namorado a participar da famosa vinganƧa. Namorado interpretado na Ć©poca por um jovem John Travolta. Ali, a forma como vĆamos a revolta de Carrie com todos existia por uma sĆ©rie de motivos: a chacota, a falta de respeito, os problemas com a mĆ£e e um falso primeiro amor.
Depois de 37 anos, uma sequĆŖncia e uma refilmagem, ambas sem sucesso, surge mais uma remake pra “Carrie – A Estranha”. Desta vez, nomes conhecidos do pĆŗblico se juntam Ć produção. Carrie Ć© interpretada por ChloĆ« Grace Moretz e a mĆ£e da personagem Ć© vivida por Julianne Moore. As duas conseguem retratar muito bem o que o roteiro e a direção pedem. E talvez os principais problemas do novo filme sejam esses dois, que optam por transformar todos aqueles problemas que a protagonista enfrenta na versĆ£o original num Ćŗnico motivo: a vinganƧa.
A direção de Kimberly Peirce (Meninos nĆ£o Choram) e o roteiro de Roberto Aguirre-Sacasa (sĆ©rie Glee) parecem imitar os filmes sobre escolas norte-americanas, como “Meninas Malvadas” ou “A Mentira”. Pode ser uma tentativa de deixar a história mais atual, que acaba caindo num lugar comum, bastante conhecido do cinema, mesmo com atuaƧƵes marcantes de ChloĆ« e, principalmente, Julianne. Ć ela quem consegue dar um novo ar, ainda mais malĆ©fico e louco Ć mĆ£e. Chega a ser agoniante quando o olhar forte dela toma conta da telona. ChloĆ«, conhecida por personagens cheios de personalidade (como em “Kick-ass” ou “A Invenção de Hugo Cabret), encontra um tom mais retraĆdo e menos sagaz, como no livro.
Existe tambĆ©m uma dificuldade de visualizar melhor o filme como terror. A sensação estranha Ć© causada pelas cenas que utilizam computação grĆ”fica. O excesso de artifĆcios criado por computador torna tudo menos próximo do real. A sequĆŖncia após o banho de sangue de porco, um dos pontos altos do filme original, se perde em meio Ć tecnologia. A cena do carro Ć© atĆ© interessante, se nĆ£o fosse o exagero. Carrie tem telecinese ou algum outro super poder capaz de abrir buracos na terra?
O ponto alto Ć© a cena em que mĆ£e e filha duelam quase no fim do longa. A imagem da mĆ£e, praticamente crucificada, Ć© marcante, numa referĆŖncia ao exagero religioso da matriarca. AtĆ© acho que essa cena, na refilmagem, seja mais forte do que a sequĆŖncia no baile de formatura. Mas daĆ, o filme termina e só uma cena nĆ£o torna a experiĆŖncia tĆ£o marcante.
Curti: Chloë Grace Moretz e Julianne Moore. As duas atrizes estão muito bem em seus papéis. Ambas conseguem dar novas vidas aos personagens tão conhecidos e que marcaram o cinema de terror.
Não curti: O resultado final deixa a desejar. Não é marcante e parece focar mais na questão do bullying do que nos outros aspectos emocionais que tornaram o primeiro Carrie um clÔssico.

