“A Menina que Roubava Livros” foi publicado em 2005. O livro de Markus Zusak fez muito sucesso e continua nas listas dos mais vendidos ao redor do mundo. É até estranho que a versão cinematográfica só chegue agora, ao contrário de outras versões feitas pela ardilosa e rápida indústria Hollywoodiana, que parece sofrer com a falta de roteiros originais.
O livro é um dos meus preferidos e por isso tentei assistir ao longa sem maiores expectativas. É difícil não fazer comparações, já que existe o fator emocional que carrego por conta da leitura feita há cerca de sete anos. O que posso dizer, com certeza, é que o filme é bem feito e sabe usar os artifícios visuais e sonoros pra contar a história, que se passa durante a Segunda Guerra Mundial.
Antes de completar 10 anos, Liesel presencia a morte do irmão mais novo e é adotada por uma família desconhecida. Tanto no livro como no filme, acompanhamos a menina nessa mudança geográfica e de sentimentos, numa Alemanha dominada pelo nazismo. Na versão literária, a morte é quem conta a história. No filme, uma narração, em poucos, mas importantes momentos faz essa tarefa. É como se a própria morte conversasse com o espectador e deixasse claro que ela está mais presente do que imaginamos.
Se o livro conta com detalhes na escrita em suas quase 500 páginas, o filme se mune da fotografia e da trilha. As questões técnicas são trabalhadas com maestria, enchendo os olhos e transmitindo sentimentos. A música, por exemplo, surge em momentos específicos e não é usada de modo exagerado. A direção de arte também se destaca com a cenografia e figurinos, assim como os efeitos visuais, principalmente na hora em que as casas são atingidas por bombas.
O trio principal, Liesel e seus pais adotivos, tornam o filme ainda mais simpático. As atuações de Sophie Nélisse (Liesel), Emily Watson (Rosa) e Geoffrey Rush (Hans) são tocantes e dão o tom certo que a história precisa, mostrando o trabalho exemplar do diretor Brian Percival (que também dirigiu episódios da série Downton Abbey e tem no currículo filmes feitos pra televisão). A relação, principalmente entre pai e filha, é construída de maneira cativante, assim como a amizade entre Liesel e o vizinho Rudy (Nico Liersch).
Em momentos espirituosos somos levados aos conflitos gerados pela gestão de Hilter. Pode ser quando um menino se pinta de preto, como seu esportista favorito, ou ainda na escolha que a família de Liesel tem de levar pra casa um judeu. Se no livro essas questões aparecem de forma mais seca e direta, no filme as imagens ganham ares de poesia. A cena em que os livros são queimados é uma delas, numa proposta que soma à imaginação de quem leu a história.
Porém, a versão para o cinema também tem pontos negativos. O principal é a narrativa linear, sem grandes reviravoltas, que pode tornar a segunda parte do longa cansativa. Ritmo que é recuperado quase no desfecho, quando a morte deixa explícita, mais uma vez, que é impossível fugir dela. “A Menina que Roubava Livros” merece ser visto, sem pré-conceitos.


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