“Somos o Que Somos” (2013) gerou certa expectativa de público e crítica. O remake feito nos EUA é baseado numa produção mexicana bastante intrigante. “Somos lo que hay” (2010) mostra a desestruturação de uma família que precisa manter uma tradição grotesca e chocante após a morte do pai. Tradição esta que, claro, não comentarei aqui.
Descobri o filme original por acaso e me surpreendi. A história vai se revelando sem optar pelos clichês dos filmes de terror. Não há sustos, sombras, assombrações. O que existe no filme mexicano é a tentativa de trazer um assunto praticamente impensável ao cotidiano de uma família.
Além do tema instigante e incomum, a construção do enredo e o destino dos personagens atraem o espectador até o fim, que choca não mais pela surpresa, e sim pela história peculiar contada de forma interessante. Sem depender de flashbacks ou de explicações demais, somos levados pra dentro daquela família, naquele momento. Mérito de todos os envolvidos e do diretor Jorge Michel Grau.
O remake apresenta algumas mudanças. Na nova produção, o centro urbano é trocado pelo interior. A morte inesperada na família é a da mãe, e não a do pai. O tal tema que surpreende plateias ainda é o mesmo, mas o resultado final não segue a mesma ordem. A primeira estranheza é falta de foco, não sabemos se estamos vendo um filme de terror, drama ou produção indie. Não que os filmes precisem necessariamente ter um gênero, um rótulo. Porém a falta de um caminho reto, sem tantas curvas, acaba deixando o espectador mais confuso que interessado. Até a trilha sonora parece bagunçada em meio a tantas influências.
As atuações são outro ponto negativo. Bill Sage (Frank), que interpreta o pai da família disfuncional, atua de forma exagerada, com poucos momentos expressivos e parece se aproveitar somente do visual pra compor o personagem. Julia Garner (Rose) e Ambyr Childers (Iris) demonstram a fragilidade exigida pelos papéis das filhas, mas sem grandes destaques. Talvez o único ponto positivo fique por conta da fotografia, que segue modelos já existentes no gênero indie.
Pra completar a mistura que se mostra inconsistente, a cena final de “Somos o Que Somos” não provoca o choque esperado pelo diretor Jim Mickle. Parece que as filhas saíram de outro filme de terror, o “Mama”, pelo modo como se movimentam ali, misturando o drama psicológico passado por elas em um momento de revanche pra cima do pai. Elas que antes se mostravam mais frágeis, mudam do nada, num enredo que não trabalha bem a necessidade de tal diferença entre as personalidades delas no início ou ao término do longa. E talvez esse seja o problema principal do filme: falta de personalidade. Seria muito pedir isso de um remake?


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