Depois de ganhar o Oscar com “O Lado Bom da Vida” em 2013, o David O. Russel está de volta numa produção mais ambiciosa e freneticamente verborrágica. “Trapaça” conta com nomes conhecidos do público e também do diretor. Amy Adams e Christian Bale trabalharam com David em “O Vencedor” (2010). Bradley Cooper e Jennifer Lawrence estiveram em “O Lado Bom da Vida”. A escolha de repetir rostos familiares é um dos principais acertos do novo longa.
Em “Trapaça” somos levados aos anos 1970/1980, quando um vigarista (Christian Bale) e sua parceira (Amy Adams) auxiliam o FBI numa investigação contra políticos corruptos. A história, que se desenrola de forma bizarra, é verdadeira ou quase real, como dizem os créditos iniciais. Para atrair os corruptos, são usados artifícios que mais parecem saídos de uma história maluca. Até um Sheik de araque é usado para enganar e prender os políticos.
Detalhes marcantes do trabalho de David estão mais uma vez presentes, como os diálogos rápidos e a minuciosa construção dos personagens. Até parece que a história fica em segundo plano, mas o modo como tudo é contado, com a ajuda da narrações, desmiuça o roteiro e aumenta a compreensão - o que pode ser considerado por muitos como um ponto positivo. Essa mania de achar que o público não é esperto o suficiente para fazer certas ligações e preencher alguns buracos no enredo me incomoda. A impressão que tive, em alguns momentos, é que o filme se alonga demais nessas explicações, comprometendo o andamento do longa e que requer paciência do espectador.
Toda a estética de “Trapaça” é arrebatadora. A fotografia e o figurino enchem a tela e os olhos. Destaque também pra trilha sonora, com Live and Let Die (Paul McCartney) e Long Black Road (Jeff Lynne). Já o elenco parece dividido entre os que conseguem atrair a atenção do público ou não. E são as mulheres que tornam o filme muito mais interessante. Amy Adams, como uma ex-stripper que vira golpista, dá vida à produção, num personagem cheio de atitude e dualidade. Jennifer Lawrence aparece bem menos, mas também de forma fantástica, como uma mulher fútil, boba e que consegue se defender quando preciso. Jennifer parece ter encontrado na direção de David um espaço pra compor e por em prática os papéis que lhe agradam e que fazem o diferencial na carreira dela. Christian Bale (figurino e peruca de gosto duvidoso) e Bradley Cooper parecem deslocados e servem de step para os grandes momentos de Amy e Jennifer.
No fim, “Trapaça” parece mais um filme pra concorrer prêmios e, mesmo com atuações marcantes e uma estética bem trabalha, peca no resultado geral. É como aquele aluno que passa de ano raspando, com nota 07, e que você sabe que poderia render muito mais.


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