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Nem uma, nem outra

15:38Guilherme Correa

Falar de música ficou tão perigoso quanto expressar opinião religiosa ou, no país do fanatismo, revelar o time do coração. Justamente num período em que se tem acesso praticamente a todos os gêneros, pra todos os gêneros, o número de indisposições criadas pela diferença de gostos aumentou consideravelmente. 

Por isso, falar sobre rivalidade no mundo pop gera ainda mais revolta por parte dos fãs. Primeiro que fã vem da palavra fanático, efervescência psicológica que demostra excesso. E já dizia algum poeta, tudo demais faz mal. Dentro dessa lógica, acho que um dos maiores problemas do fã é não enxergar quando o seu artista preferido erra. Ou talvez pior, tentar encontrar uma desculpa pra aquela música ruim lançada, para o clipe sem pé nem cabeça ou pra um show mal feito.

Eu quero chegar é na rivalidade criada neste mês entre duas cantoras: Lady Gaga e Katy Perry. Pode parecer de uma futilidade imensa, e, na real, acho que pode ser. Mas é impossível não tentar analisar de modo mais profundo o que os fãs de ambas as cantoras vem fazendo pra tornar elas ainda mais famosas, independente da qualidade da música produzida por ambas.

De um lado temos a ex-cantora gospel, que se desprende dos pais, se lança no mercado profano da música pop, diz que beija meninas, faz apologia à Califórnia e agora tenta manter o sucesso do álbum mais recente. Do outro tem a menina de Nova York, que toca piano, se veste de homem, usa perucas e se aventura pelo pop/eletrônico. O que as duas parecem ter esquecido é a magia que elas criaram quando surgiram nesse cenário.

Katy Perry era um ar novo, já que saia do esquema bubblegum pop. A primeira música de sucesso dela, antes de “I Kissed A Girl”, foi “Ur So Gay”, de letra divertida falando sobre um ex-namorado. O primeiro CD tinha uma levada pop/rock, com o single “Hot N’ Cold”. O segundo álbum foi um tremendo sucesso de uma qualidade questionável. Músicas e batidas que não inovavam, só requentavam o que estava na moda. Pra não dizer que não curti nenhuma das músicas, “Teenage Dream” me pareceu a mais autêntica (ou menos genérica), tanto na letra quanto no ritmo.


Lady Gaga surgiu na hora certa: quando o pop voltava a se unir ao eletrônico. Nenhuma novidade, mas que voltou às paradas depois de uma temporada tomada pelo hip-hop e RnB nos charts norte-americanos. Como li outro dia, talvez a cantora tenha sido a última pop star criada na era em que a tevê, veículo de massa, ainda era fator imprescindível para o sucesso de um artista. Mas no segundo álbum, tudo parece ter saído dos trilhos. Promessas de músicas incríveis se chocaram com a realidade de um som bem menos expressivo. 


E este ano, as duas lançaram os novos singles, dos respectivos álbuns, no mesmo dia. A guerra estava feita. Fãs comprando a música, passando horas no youtube assistindo aos lyric vídeos, fazendo propaganda pras tais divas, tudo de graça e, sinceramente, por muito pouco. Nem “Roar”, de Perry, nem “Applause”, de Gaga, mostraram a que vieram. 

Nem vou entrar no demérito de “Roar” ser tão parecida com “Brave”, de Sara Bareilles. (Até porque “Brave” é péssima, mais uma música de autoajuda, que cai na mesma ladainha que muitos outros singles lançados recentemente. O single mais fraco de Sara até hoje.) É que as músicas não têm nada de diferente. O som é o mesmo apresentado pelas artistas anteriormente e poderia ser entoado por qualquer outra cantora, novata ou veterana. A impressão é que são duas mulheres que estudam pra serem estrelas, mas não fazem a lição de casa. Outras ditas divas do pop sempre tentam se reinventar. Nem sempre o resultado é positivo, mas é notória a mudança de estilos nos álbuns, na imagem e na equipe que trabalha nessa fábrica de fazer estrelas. 

Katy Perry pode não cantar bem ao vivo, mas tem o carisma ao seu favor. Lady Gaga é um personagem. Talvez por isso ela esteja em desvantagem. Lembra-me o caso do Marilyn Manson: sem a maquiagem, sem as roupas estranhas, é apenas mais um tentando se encontrar nesse cenário. Voltando as músicas, ainda acho “Applause” superior a “Roar”. Pelo menos no instrumental. Muitos acham o refrão confuso, mas gostei do modo como o título é soletrado e também das batidas, que beiram entre o indie e o pop eletrônico. Mas também está longe de ser alguma obra prima ou inovadora. 

Independente disso, é cedo demais pra dizer quem se sairá melhor nessa briga. No quesito mercadológico, os números até podem ajudar, assim como os prêmios, os números de seguidores no Twitter ou de visualizações de um clipe. Já no quesito qualidade, por enquanto, as duas saem perdendo.

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