Parece história de terror oriental. Uma “maldição” Ć© passada a uma jovem atravĆ©s do sexo. E daĆ ela comeƧa a ser seguida por seres sobrenaturais. Pra se livrar deles, só fazendo sexo com outras pessoas. NĆ£o Ć© piada, nĆ£o Ć© pornĆ“, Ć© o filme de suspense “It Follows” ou traduzido como “Corrente do Mal”. Li a sinopse, nĆ£o acreditei, e só depois que vi o trailer senti uma curiosidade pra assisti-lo. E o filme nĆ£o Ć© ruim nĆ£o. TambĆ©m nĆ£o Ć© dos melhores.
Jay, a personagem amaldiƧoada, interpretada por Maika Monroe, parece viver num mundo Ć parte. Tem jeito melancólico, num subĆŗrbio apĆ”tico, com filmes antigos passando na TV. A sensação Ć© de que alguma coisa estĆ” errada, fora do lugar. Assim que Jay transa com o namorado, ela comeƧa a ser perseguida e precisa estar sempre atenta e pronta pra fuga. Mas só quem tem a maldição Ć© quem enxerga tais “fantasmas”. E assim acompanhamos a loucura que a vida da protagonista vira. Noites mal dormidas, pessoas desconhecidas que podem oferecer perigo e amigos que sofrem pra entender o que se passa.
“Corrente do Mal” tem fotografia que parece filtro hipster do Instagram, nenhuma novidade no cinema. A trilha com sintetizadores tambĆ©m nĆ£o traz originalidade, alĆ©m de surgir constantemente, gerando mais raiva do que agonia ou tensĆ£o. Os Ć¢ngulos diferenciados, explorando as locaƧƵes e cenĆ”rios, atĆ© sĆ£o um respiro de criatividade, jĆ” que nĆ£o se apoiam somente em cenas fechadas, tentando um clima claustrofóbico explorado Ć exaustĆ£o no gĆŖnero. O melhor exemplo Ć© a sequĆŖncia em que Jay estĆ” na secretaria da escola e depois no carro com os amigos. Ć possĆvel ver, lĆ” longe, uma menina indo na direção dela. O problema Ć© que, entre pontos positivos e negativos, temos um filme ok, mediano, sem mais ou menos, nem tĆ£o bom, nem tĆ£o ruim.
Associar maldição com crĆtica social - a exploração do sexo pelos jovens - pode ser uma alternativa pra entender melhor o roteiro. Enxergar na cidade abandonada uma citação indireta de crise tambĆ©m. Só que o enredo deixa muitas pontas soltas na proposta principal. NĆ£o fica claro se sĆ£o fantasmas, mortos-vivos ou zumbis os perseguidores. TambĆ©m nĆ£o dĆ” pra entender a cena em que uma das assombraƧƵes mata um jovem atravĆ©s de relaƧƵes sexuais. E tudo fica ainda mais estranho quando uma das tais assombraƧƵes parece ser uma crianƧa. Ela foi abusada? Ela mataria abusando outro humano?
A cena da piscina lembra muito a de um dos filmes “Ringu” (conhecida aqui no paĆs pelo remake de “O Chamado”), só que bem menos atraente. DĆ” atĆ© pra formar uma torcida contra a protagonista. Um filme nĆ£o precisa ser tĆ£o direto, tĆ£o explĆcito. Mas precisa apresentar bem suas propostas. O que temos aqui Ć© um mar de subjetividade, sem grandes resquĆcios de criatividade, tornando a “Corrente do Mal” em apenas mais um longa de suspense.

