Nem sempre a vida segue com grandes reviravoltas. Ela apenas segue. O que muda é a experiência de cada um com esses momentos. “Boyhood”, indicado ao Oscar 2015 de melhor filme, mostra de modo bastante orgânico e realista o que acontece com muitos de nós. Talvez por isso a identificação com o longa, ou partes dele, seja tão latente. Uma experiência que pode agradar ou desagradar, mas é praticamente impossível não se sentir provocado pelo o que o filme mostra.
O diretor Richard Linklater (“Escola do Rock” e “Antes do Amanhecer”) teve a brilhante ideia de gravar “Boyhood” durante 12 anos com o mesmo elenco. E é esse o primeiro ponto de assimilação. Na tela, estão pessoas reais, num momento de ficção, que sofrem com a ação do tempo. Um risco grande já que ninguém tem bola de cristal pra saber como seria o futuro dos envolvidos no filme. A vida de Mason (Ellar Coltrane) é escancarada e somos convidados a observar de perto o crescimento dele e de quem está em volta. Mason é filho de pais separados (Patricia Arquette e Ethan Hawke) e tem uma irmã mais velha (Lorelei Linklater, filha do diretor). O garoto, que se mostra melancólico mesmo tão novo, cresce e lida com situações que todos enfrentamos: mudanças de casa, de escola, puberdade, primeiro amor. Aqui o clico da vida é mostrado de forma leve, com situações e pessoas comuns, sem se perder num enredo mirabolante. As mudanças psicológicas e físicas em “Boyhood” se mostram mais eficazes que os clichês de muitos roteiros cheios de vai-e-vem.
Bastante coeso em apostar em fotografia e planos simples, o filmes conta com uma trilha sonora eficiente e que transporta o espectador pra época em que a história se passa. São detalhes que situam o tempo da obra sem o uso de artifícios já manjados, como uma passagem apontando “tantos anos depois”. Ao invés disso, destaques culturais de cada ano são citados, como Harry Potter, Star Wars, Britney Spears e Lady Gaga – um passado recente que já gera certa nostalgia. Tem também Obama na área política e armas de fogo em citações geográficas.
Os quatro personagens principais tem afinidade e momentos importantes juntos e isolados. Uma família que enfrenta a separação dos pais, os erros amorosos da mãe, o padrasto alcoólatra. Uma verdadeira imersão dentro do núcleo. Os experientes Patricia Arquette (da série “Medium”) e Ethan Hawke (“Dia de Treinamento”) conseguem tirar de melhor o que os atores mais novos podem oferecer. A cena em que a mãe chora ao se sentir sozinha, já no fim do filme, é um soco no estômago. Afinal, quanto mais a vida pode oferecer? E mesmo enfrentando dificuldade, os filhos crescem e se tornam jovens adultos legais, sem qualquer tipo de revolta. “Boyhood” é um filme sobre passagem, que tenta gravar e agarrar aquilo que tanto nos aflige: o tempo.


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