cinema Quando Eu Era Vivo

Pais e filhos

22:40Guilherme Correa

Zé do Caixão não é o único a produzir filmes de terror no Brasil. “Quando Eu Era Vivo” prova que o novo cinema brasileiro pode surpreender positivamente num gênero tão pouco apostado por aqui. Dirigido por Marco Dutra, de “Trabalhar Cansa”, o longa mistura presente e passado e conta com Antônio Fagundes, Sandy Leah e Marat Descartes, que interpreta Júnior.


Júnior acaba de se separar da esposa e volta a morar no apartamento do pai, interpretado por Fagundes. Além deles, Bruna (Sandy) vive como inquilina. É nesse apartamento, espaço que se torna personagem principal da história, que Júnior relembra a infância marcada pela presença forte do irmão e da mãe falecida.


A chegada do filho torna a vida do pai complicada. A residência não tem nada da época em que a família vivia junta. Na sala, aparelhos de ginástica mostram que o pai se preocupa mais com o futuro, enquanto Júnior vai, aos poucos, cavando o passado. O apartamento no começo do filme é claro, mas vai aos poucos se tornando escuro, com luz diferenciada, cheia de objetos antigos resgatados pelo filho. Nas fitas VHS encontradas por Júnior, descobrimos a obsessão da mãe pelo ocultismo.

Esse fanatismo permite que o filme cresça. A produção é cuidadosa e não aposta em sustos ou sons altos para entreter. O terror e o suspense permeiam todo o longa, desde os gritos vindos da rua, que seriam de um mendigo, até o jeito doce de Bruna. Louvável a ideia de colocar Sandy no papel. A voz e o jeito bonzinho causam aflição, do mesmo modo que o olhar maluco de Júnior, atuação de destaque do Marat Descartes. É preciso ressaltar também as agonizantes cenas que envolvem as cabeças de gesso – que devem ser evitadas por claustrofóbicos. São momentos que lembram os melhores filmes do gênero, como “O Iluminado”. A trilha sonora trabalha em conjunto com a proposta, somando ainda mais à produção, baseada no livro "A Arte de Produzir Efeito Sem Causa", de Lourenço Mutarelli.


Pode não ser nenhuma novidade entre os filmes de terror, mas é um respiro dentro do cinema nacional. A forma como a história é conduzida revela a inteligência de Marco Dutra na construção do longa. “Quando Eu Era Vivo” é inspirado e merecia mais tempo nos cinemas do país. Vale assistir e prestar atenção nos detalhes simples, mas que metem medo. De um boneco do Fofão ao LP da Elizângela.

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