Relacionamentos não são fáceis, pode ser na família, numa amizade, namoro ou casamento. Criar laços requer doses extras de paciência, companheirismo e afinidade. E nem sempre estamos preparados pra isso. “Flores Raras”, filme dirigido pelo brasileiro Bruno Barreto, tenta mostrar as dificuldades enfrentadas quando precisamos deixar nossos casulos solitários pra receber algum convidado, que invade provocando emoções, exaltando sentimentos.
A história, baseada em fatos reais e no livro “Flores Raras e Banalíssimas”, de Carmen L. Oliveira, mostra a história de uma das poetisas mais importantes do século passado, a americana Elizabeth Bishop. Elizabeth, interpretada por Miranda Otto (que participou da trilogia “O Senhor dos Anéis”), escreve como poucos, mas tem dificuldade em se expressar verbalmente. Logo no início da produção, vemos que a poetisa não se sente a vontade lendo em voz alta os próprios textos. A presença do melhor amigo e a bela paisagem do Central Park, em Nova Iorque, parecem não ajudar na tarefa.
Uma fuga criativa faz com que ela venha até o Rio de Janeiro, na década de 1950, para visitar uma antiga namorada e colega de faculdade, Mary (interpretada por Tracy Middendorf). Mary mantém um relacionamento desgastado com a arquiteta e paisagista brasileira Lota de Macedo Soares (feita por Gloria Pires). Os dias de Sol e calor que a americana encontra ao chegar no país estranho será tomado pela tormenta justamente quando Elizabeth e Lota ficam juntas pela primeira vez.
A partir desse momento, o filme mostra a adaptação de uma estrangeira no amor de Lota, na amizade com Mary e no Brasil. Bruno Barreto ganha pontos ao mostrar o relacionamento homoafetivo de forma natural, sem tabus. Talvez o melhor exemplo de trabalho semelhante ao mostrar um relacionamento diferente venha de outra produção, também do diretor, “Dona Flor e seus Dois Maridos”. Mesmo assim, Bruno não se livra de alguns clichês. Lota é a latina, de temperamento forte, que exala sexualidade e vai tomar as rédeas da relação. À medida que os clichês diminuem, Lota e Elizabeth se tornam parecidas, com atitudes marcantes, mas daí, o filme está quase no fim.
Entre os momentos mais belos do filme estão as metáforas por trás dos detalhes. Quando a chuva chega, aparecem também os conflitos. Quando a garrafa de vinho ou whisky terminam, sobra a solidão, a melancolia. O frasco de remédios vazio mostra que um problema mais sério aflige alguém que não demonstrava os reais sentimentos. Alusões políticas também se fazem presente na figura do ex-governador Carlos Lacerda, interpretado por Marcello Airoldi. Além disso, a ideia que a estrangeira tem do Brasil revela uma visão menos romântica do povo.
As atrizes principais, Miranda, Tracy e Gloria, se mostram competentes em cada cena. A brasileira comprova, mais uma vez, que é uma grande atriz não só na televisão. Mesmo passando grande parte do filme falando inglês.
A direção de arte e fotografia do longa fizeram um ótimo trabalho tentando retratar um Rio de Janeiro de outra época. Em alguns momentos é possível perceber o uso de recursos gráficos, nada que estrague a produção ou tire o foco da história. Também não aparecem propagandas explícitas, tão comuns no cinema nacional e que, essas sim, desviam a atenção do espectador. Com muitos pontos positivos, “Flores Raras” é uma consistente história de amor e perda, indo além do entretenimento simples.
Curti: O trio de atrizes que compõe o filme. Todas conseguem passar uma verdade à história.
Não curti: A trilha sonora poderia ser melhor explorada, situando melhor o espectador em qual época o filme se passa.


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